28 de ago de 2012

Peter Kürten - O Vampiro de Düsseldorf (final)


Agora, chegamos na terceira parte da história de Peter Kürten, o Vampiro de Düsseldorf. Aqui, trataremos sobre o interrogatório, julgamento e condenação de Kürten (Você pode ler a parte um e a parte dois aqui).

Kürten é interrogado.

Levado para a delegacia, ele foi interrogado, narrando sobre todos os roubos, incêndios, assaltos e ataques que realizou. Os detetives ouviam os relatos e tratavam os detalhes com muita cautela. Era inadmissível cometer mais erros.

A indignação pública era geral. Tanto pelo fato de que os erros policiais custaram as vidas de mais pessoas, tanto pelo fato de um inocente, Stausberg, está preso,cumprindo sentença por crimes que ele nem cometeu. Quando Stausberg havia sido preso, por ter confessado os crimes de fevereiro, ninguém investigou sua culpa a fundo. Ninguém ligou para o fato de Stausberg ser insano. A sede de encerrar o caso foi maior.

Uma hora depois da detenção, Peter foi levado para os locais onde cometeu os assassinatos. Foi permitido ao assassino assumir a liderança das buscas. Peter guiou os policiais pelos mesmo atalhos pelos quais passou, deu instruções sobre onde abandonou os cadáveres e onde e como os ataques ocorreram. Durante essas expedições pelos locais dos crimes, ficou claro aos policiais que Peter era o assassino. ele descreveu detalhes dos crimes que só a policia sabia. Agora parecia que a policia poderia respirara aliviada. Peter declarou que um de seus objetivos ao cometer os crimes era chocar as pessoas, por isso ele tentava cometer os crimes da forma mais horrível possível. Além, é claro, do prazer causado pela violência e o sangue que jorrava das ferida, ingerido por Peter.
Depois de terminada a "turnê" pelos locais do crime, Peter foi levado para o quartel de Policia de Düsseldorf, onde foi posto frente a frente com Maria Buttliez e Gertrud Schulte. Ao vê-las, ele empalideceu. Seguiu-se o interrogatório.
Mugshot de Peter Kürten.
A investigação preliminar durou meses. Kürten agiu por todo o tempo com uma serenidade imperturbável, impecável. Ele não aparentava ser o assassino que era. Médicos queriam examinar sua mente, para tentar descobrir se ele era portador de algum transtorno mental, mas Peter foi contra. Ele queria auxiliar a policia dando instruções. Peter acabou sendo submetido a testes psiquiátricos mesmo contra sua vontade. Ele informou aos policiais onde guardou on troféu de duas vítimas (O relógio de Maria Hahn e o anel de Ida Reunter). Também informou a localização de dois martelos novos,que ele havia escondido no campo e só pelas informações de Kürten foi que a policia conseguiu o martelo quebrado, usado no ataque contra a Sra. Wanders, cuja cabeça voou em direção à arbustos. Os martelos novos, Peter escondeu para ataques futuros. Peter confessou três homicídios, pelos quais era inocente. Mais uma vez seu narcisismo e sua vontade em espantar o povo falou mais alto. Os policiais estavam céticos quanto a isso e acabaram descobrindo que tudo era uma mentira.
A equipe de investigação responsável pelo caso Kürten. Ernst Gennat é o segundo que está sentado, da esquerda pra direita. Essa foto foi tirada em 1929 e a policia ainda não sabia a identidade do Vampiro de Düsseldorf.
Outros pontos que chamaram a atenção é que Peter negou firmemente que havia sofrido de colapsos mentais enquanto praticava seus crimes, ao contrário do que tinha falado à sua esposa. ele também tentou dar um motivo mais "justo" aos seu atos: Vingança contra a sociedade que o havia encarcerado mesmo sendo inocente. Peter negou que seus crimes foram praticados por impulso sexual.

Tudo mudou em 27 de junho de 1930. Kürten de repente, mudou seu depoimento e retirou sua confissão. Ele se dizia culpado apenas dos incêndios, estrangulamentos e estupro, afirmando que nenhuma de suas vítimas morrera. Dizia ele ter confessado os crimes do Vampiro apenas para dar uma condição financeira confortável para a esposa. seria essa uma tentativa desesperada de salvar sua pele? Apesar dessa reviravolta no caso, havia muitas provas que o incriminavam, sendo quase impossível, agora, convencer alguém do contrário. Em agosto, Peter confirmou suas antigas confissões de assassinato. Peter aguardava julgamento em prisão preventiva. Ele confiou sua defesa ao advogado Dr. Alex Wehner. Ele era um prisioneiro exemplar e bem comportado, muito diferente do Peter de antigamente, entretanto muitos guardas da prisão não gostavam dele.

No natal de 1930, Peter enviou um cartão comemorativo para o juiz de instrução e outro para o presidente do Instituto Correcional.


O julgamento de Kürten.

Já era de se esperar o resultado do julgamento. Entretanto, foi curioso ver as tentativas de defesa de Kürten e de seu advogado. Comparável à um touro que, mesmo tendo como destino sair morto da arena, luta bravamente em defesa própria. O fim era inevitável e Peter sabia disso. Mesmo assim ele não parecia tenso, ao contrário de seu advogado.

Não havia local adequado para servir de palco para julgamento de Kürten. Era necessário um local bem maior que o tribunal de Düsseldorf.
Primeira foto: Peter Kürten é julgado. Nos detalhes, Gertrud Hamacher e Maria Hahn, vítimas fatais de Peter, na foto abaixo: policiais buscam pelo cadáver no local indicado pelo assassino. Nas primeiras escavações, nada foi encontrado, mas numa segunda busca os policiais encontraram um cadáver feminino.
Decidiu-se fazer o julgamento no ginásio da academia de policia de Düsseldorf. Para tornar o local digno da ocasião, uma rápida reforma foi feita. Pintores, carpinteiros e pedreiros foram contratados. Paredes provisórias foram erguidas. Era notável o cheiro de tinta fresca no recito. O banco dos réus era cercado por um balcão de madeira, fechado dos quatro lados. Peter ficou ali, posto em um local de destaque.
Dr. Wolff e o advogado de Kürten conversam sobre a reabertura do julgamento de Stausberg, trancafiado em um hospício acusado dos homicídios de fevereiro.
No julgamento, além da imprensa alemã, dezenas de jornalistas estrangeiros estavam presentes. As notícias sobre o assassino correram o mundo. Na noite anterior ao primeiro dia de julgamento, uma multidão dormiu em frente ao local. As pessoas não queriam perder nenhum detalhe. Na parte da manhã, a policia precisou isolar o local.

Em 13 de abril de 1931, o julgamento de Peter Kürten, o “Vampiro de Düsseldorf” começou. O julgamento duraria um total de nove dias e seria presidido pelo Dr. Rose, Juiz diretor do tribunal federal; dois juízes distritais como assessores e seis jurados.
A acusação foi entregue ao promotor Dr. Jansen Eichmann. O réu seria defendido por Dr. Alex Wehner.
Foto acima, Peter Kürten (sinalizado pela seta) no tribunal. No detalhe, Peter Kürtne, bem apessoado, com o terno abotoado e cheirando à água de colônia. Na foto abaixo, Peter (o segundo da esquerda pra direita, de costas) é conduzido à delegacia de policia, onde iria ser julgado.
Na platéia, além dos inúmeros advogados, estudantes de direito e psiquiatras interessados no caso, havia também muitas mulheres das cercanias de Düsseldorf. Todas desejavam somente uma coisa: Ver de perto o assassino sexual que tanto medo levou à cidade. Kürten estava bem vestido, bem barbeado e com aparência agradável. ele havia passado até mesmo água de Köln.

As acusações contra Peter eram de 49 casos de incêndios criminosos, nove acusações de homicídios e sete casos de tentativa de homicídio, além do duplo assassinato cometido por Peter aos nove anos de idade, até então, tratado como um infeliz acidente, caso pelo qual, na época, Peter não foi julgado, até porque ele tinha 9 anos de idade e era criminalmente irresponsável.

Quando o juiz lhe perguntou se ele se considerava culpado de todas as acusações apresentadas, Kürten disse em voz quase inaudível:

"Sim".

Quando perguntado sobre sua juventude, Kürten, primeiramente, hesitou. Aquelas lembrançãs não lhe pereciam muito agradáveis, mas pouco a pouco, seu embaraço foi diminuindo. Ele foi contando sua vida, algumas vezes se enrolava e recomeçava toda a história:

"Eu nasci em Köln-Mülheim. Meu pai era um alcoólatra crônico e um homem violento. Ele nós expós à  espancamentos terríveis. Minha infância só pode ser descrita como o martírio ..."
Mãe de Rosa Ohlinger, vítima de Kürten (de vestido claro) caminha na direção do local onde ocorreria o julgamento de Kürten.
No segundo dia de julgamento, não houve público. apenas médicos e advogados puderam entrar no tribunal. Foram reservados apenas 24 lugares para a imprensa e os repórteres tiveram que tirara na sorte. O resto ficou do lado de fora esperando por informações.
No terceiro dia, começaram os depoimentos das testemunhas começando pelo policial que prendeu Kürten, até o depoimento de Maria Buttliez. Uma após a outra, as mulheres que sobreviveram ao ataque de Peter foram sendo ouvidas. O público esperou em vão para ver a reação de Peter diante das mulheres que ele quase matou, mas foi tudo em vão. Peter permaneceu calado.
Hollander van Kootwijk, chefe da Justiz Presse Centrale foi o responsável pela organização da imprensa durante o julgamento de Kürten.

 Maria Buttliez, principal testemunha de acusação no caso de Peter. Ela havia sobrevivido ao ataque do assassino e foi peça fundamental para sua captura.
Anna Goldhausen, a moça que quase morreu após o ataque de Kürten conversa ao lado de fora  da delegacia. ela precisou receber uma transfusão de sangue após set brutalmente atacada.

Depois da prisão de Kürten, Auguste sofreu um colapso nervoso, mas estava havia se recuperado após ser internada em um hospital. Após o ocorrido, ela e Kürten assinaram a papelada do divórcio.

Kürten (indicado pelo "X"), com o olhar distraído, como se nada estivesse acontecendo.

Kürten estava imóvel no banco dos réus, olhando somente para o chão.

Foram apresentadas inúmeras evidências contra Kürten: O anel e os relógios, que foram guardados como troféus; Roupas manchadas de sangue; Armas diferentes, como martelos, punhal e tesoura; uma pá usada para enterrar uma das vítimas. Quatro crânios de algumas vítimas com fraturas resultantes de marteladas e golpes diversos. Tudo estava em cima da mesa, como uma exposição bizarra. Especialistas em grafologia examinaram as cartas anônimas, enviadas para a policia indicando onde estavam os cadáveres. A letra era compatível com a de Kürten. Essa prova também foi apresentada no tribunal.]

Exposição bizarra: Crânios, ossos, peças de roupas, martelos, um punhal e tesouras, além da pá usada para enterrar um cadáver. Tudo isso estava exposto no julgamento de Peter Kürten. Esses quatro crânios pertenciam às vítimas de Kürten. Repare nos golpes na região da têmpora.

Quatro especialistas em psiquiatria: o já citado Karl Berg, os psicanalistas Sioli e Huebner e o doutor Reather apresentaram relatos orais sobre os resultados dos exames psiquiátricos de Kürten. Eles foram unânimes: Peter era anormal e predisposto ao sadismo desde a tenra idade. Ele cometeu seus crimes em um momento de frenesi, entretanto ainda estava consciente, sendo responsável por suas ações (O parágrafo 51, que tirava a responsabilidade do réu por motivo de insanidade, não se aplicava a ele).Eele não apresentava nenhum quadro de doença mental grave,a pesar de certa anormalidade e excentricidades psicológicas. Sua imaginação hiperativa extrema e a propensão à crueldade se desenvolveram por meio de inferioridade moral que ele sentia na infância. Seu raciocínio não era afetado, sendo ele metódico na hora de praticar seus crimes. Ele foi diagnosticado como um homes sexualmente pervertido, que tinha a habilidade de esconder seus impulsos sexuais, vivendo como uma pessoa normal.

Depois de apresentado o resultado dos exames psiquiátricos, foi perguntado a Kürten se ele sentiu algum remorso ou arrependimento de seus crimes, ao qual ele respondeu:

 "Posso assegurar-vos que no momento tenho profunda compaixão pelas infelizes vítimas, especialmente pelas crianças. Agora estou completamente ciente da coisa terrível que eu cometi naqueles momentos."

O Juiz refez a pergunta: "Não estou perguntando se você sente compaixão pelas vítimas no dia de hoje, mas se você sentiu alguma pena delas no momento em que praticava seus atos. Durante ou imediatamente depois."

Kürten respondeu: "Não, isso eu não senti."

O Promotor Dr. Eichmann tomou a palavra e disse: "Seu único objetivo ao praticar os crimes foi se tornar o 'rei dos criminosos sexuais', o que acabou se tornando. Se há algum assassino que mais merece a pena capital, esse assassino é Peter Kürten."

O Juiz Dr. Rose caminha ao lado do capitão de policia Dubben.
Os crimes pelos quais Peter respondia eram de tal gravidade que não havia outra pena pare ele além da capital. Só pelas sete tentativas de homicídio ele pegaria um total de 15 anos de prisão, sem direitos penais e a supervisão da policia por toda a vida.

O defensor de Peter, Dr. Wehner tinha pela frente uma tarefa quase impossível, então tentou outra tática: Ele apontou para a hereditariedade de Peter, sua infância infeliz e afirmou que se o tribunal acreditava em sua confissão, também teria que acreditar nele, quando ele falava sobre seu estado emocional, que agiu sem nenhuma premeditação e numa excitação irreprimível e incontrolável: "Legalmente falando, culpa do réu não pode ser medida pelo horror causado. Agora,humanamente falando, é em grande parte o destino.
O silêncio tomou conta do tribunal e era possível ouvir um alfinete caindo. Peter se levantou, limpou a garganta e pronunciou suas palavras. Todos pararam para ouvir o assassino:

"Eu não estou tentando justificar minhas ações e estou completamente preparado para aceitar as consequências que elas trarão para mim. Mas acho que tenho o direito de ter minhas palavras levadas à sério e que acreditem em mim. Eu já disse completamente tudo e revelei tudo de forma voluntária. Quero enfatizar aqui meus sacrifícios em ajudar a policia... Bom, então quero dizer ainda, agora estou prestes a pagar pelo que pratiquei e irei enfrentar a pena de morte. Irei cumprir minha pena de uma vez só. Por isso devem ter a certeza de que há apenas uma inesperada dor dentro de todos e que ela não vai passar após minha morte. Dezenas de vezes eu refleti sobre isso. Se você levar tudo isso em conta eu iria pagar de boa vontade. O que me levou a cometer os crimes foi o sentimento de ódio e vingança que eu sentia  da sociedade. Eu gostaria de perguntar: Eu teria alguma chance de perdão?”
O júri se retirou para as deliberações e três horas depois, eles voltavam com um veredicto. O juiz anunciou a sentença: Culpado de todas as acusações, sendo condenado à morte por guilhotina.
Dr. Wehner tomou a palavra: "O veredicto não é, para mim, nenhuma surpresa e eu e o réu já conversamos sobre isso com muito cuidado. Kürten irá aceitar resultado de seu veredicto, seja qual for a decisão do júri. Ele irá aceitá-la com cuidadosa consideração..."

O Juiz perguntou à Kürten: "Você aceita se veredicto?"

Peter respondeu: "Sim"

Peter foi retirado do recinto. O público se levantou instintivamente de seus lugares, como em uma dança sincronizada para vê-lo deixar o local, como um ator cujo papel foi jogado fora.
O carro policial que transportou Peter Kürten no dia do julgamento.
Na época do processo de Kürten, as autoridades alemãs travavam uma “batalha” acerca da pena capital. Alguns acreditavam que tal pena não poderia ser imposta. Entretanto, Peter parecia mesmo sem sorte: Ambos os lados, os prós e contras a pena de morte, foram a favor da guilhotina para Peter Kürten. Peter havia rejeitado alguns recursos do julgamento, mas tentou um pedido de clemência, pedido esse que foi rejeitado. A Alemanha estava contra o “Vampiro de Düsseldorf” e queria que sua cabeça fosse arrancada de seu pescoço.

Últimos dias.

Ao professor Karl Berg, pelo qual, como já dito aqui, Peter criou um elo de amizade, ele disse: “Não acredito que com minha execução as pessoas conseguiram alguma coisa. Não irão lavar, com meu sangue, o sangue das pessoas que eu derramei. Isso não passa de mais um ato de vingança da sociedade. Então por que isso tudo? Só por que o povo grita?”

Peter também afirmou: “Se hoje eu fosse livre, eu não poderia garantir que eu iria começar tudo de novo. A vontade toma conta de mim.”

Já perto da data da execução, Peter demonstrou um desejo mórbido. A última pergunta ao professor Karl Berg foi: “Seria possível, no último milésimo de segundo, quando a lâmina atravessar meu pescoço, eu escutar o barulho de meu próprio sangue esguichar para longe?”

Karl Berg respondeu que sim, poderia ser possível.

Ao ouvir essas palavras, Peter disse: “Desejo ouvir o esguichar de meu próprio sangue. Isso para mim seria o prazer dos prazeres.”

Peter esperava sua execução numa cela da prisão de Düsseldorf-Derendorf. Ele estava sobre a responsabilidade do Ministério de Estado Prussiano. Durante suas últimas semanas ele leu jornais. Uma noticia lhe trouxe certo alívio: Uma curta nota trazia a notícia de que Auguste, por seus serviços prestados para a policia na captura do Vampiro, receberia a soma de 9000 marcos, metade da recompensa. Esse dinheiro já garantiria um fim de vida tranqüilo para Auguste.

Em 30 de julho de 1931, o último pedido de clemência de Peter Kürten foi negado. Como de costume, estavam sendo feitos os últimos preparativos para a execução do prisioneiro. Peter estava tranqüilo e a todo momento manteve a calma.
No dia primeiro de julho, às três horas da tarde, Peter Kürten foi transferido de carro para a cadeia de Klingelpütz, em Köln. Ele sabia que essa seria sua última viagem.

No fim da tarde, o procurador geral Eich foi até a prisão informar a Peter que seu último pedido de clemência havia sido negado e que na manhã seguinte Peter seria executado. A noticia pareceu ter certo efeito sobre Kürten, mas rapidamente ele se recompôs.
Quando perguntado sobre seus últimos desejos, Peter pediu a presença de um sacerdote, queria participar de uma missa pela manhã, escrever cartas para os familiares das vítimas e, no jantar, gostaria de comer Wienerschnitzel, uma espécie de carne empanada.
A última noite parecia não ter fim. Dois sacerdotes e o advogado faziam companhia à Peter. Eles conversavam e a presença deles no recinto parecia confortar Kürten.

Peter Kürten sentou-se à mesa e se pôs a escrever cartas paras os familiares de Maria Hahn, Elizabeth Dorrier, Gertrud Albermann, Rosa Ohlinger, Christine Klein, Ida Reuter, Rudolf Scheer e para o pai de Luise Lensen e Gertrud Schulte. Ele também escreveu cartas para Anne Goldhausen e Gertrude Schulte. Nas cartas, em poucas linhas e em frases estereotipadas, kürten pedia perdão pelador que causou. "Eu não sabia o que estava fazendo", escreveu elee acrescentou, "Na minha morte irei expiar". Essas cartas seriam prova de que Kürten havia se arrependido e desejava se corrigir?

A última carta foi escrita para a ex-esposa, Auguste:

                                                                                                            "Köln, 02 de julho de 1931
Minha cara e boa Auguste!
Você provavelmente já tem em mente o que irá acontecer comigo. E você sabe o que te fez, tão subitamente, is até Leipzig (Os defensores de Peter auxiliaram Auguste em sua mudança para Leipzig, onde seu irmão morava)
Sim, minha querida Auguste. Eu mesmo cavei minha sepultura. No momento eu estou tranquilo.Agora são três da madrugada, então, às 6 da manhã irei ser levado ao patíbulo. Eu te amo Auguste, até mesmo em minhas últimas horas. É com o coração agradecido que eu lhe digo sobre o padre Albert, o meu advogado Wehner e vários outros senhores, que vieram de todas as partes de Köln para me consolar, trazendo um pouco mais de conforto para mim nessas últimas horas. Eu escrevi para as famílias de todas as vítimas, pedindo perdão, agora,minha querida Auguste, eu lhe pergunto se o seu coração pode me perdoar,por todos os erros que eu cometi e que lhe trouxeram vergonha e desgraça. Que o bom Deus esteja com você, Auguste. Gostaria de pedir perdão a todos os nossos familiares e parentes. Envie a eles as minhas sinceras lembranças

Auguste, meu amor, ore por mim! Nos céus iremos nos encontrar novamente."


Kürten passou a noite em claro. As cinco horas, novamente foi lida a sua condenação. Ele a aceitou.

Foi perguntado o se ele desejava participarde uma espécie de oração, feita para os presos condenado a morte. Peter sussurrou um "sim" quase inaldivel.

Pela manhã, Peter teve suas mãos amarradas atrás das costas e foi levado para o quintal. O esperava uma velha guilhotina, remanescente da Revolução Francesa,ao lado dela,o carrasco de Magdeburg estava pronto. Peter estava tranqüilo e trazia um sorriso no rosto pois tinha esperança de ouvir o esguichar do próprio sangue. Em nenhum momento ele demonstrou medo.
Um desenho artístico mostra a execução de Peter Kürten.
No pátio, reuniu-se uma pequena multidão, formada por homens vestidos de preto. Kürten subiu silenciosamente as escadas do cadafalso. A execução foi assistida por membros da Divisão criminal, pelo Procurador Geral Dr. Eich, um subsecretário do gabinete Presidencial Alemão e, como exigia a lei, dos respeitáveis cidadãos de Düsseldorf.

A lâmina desceu e cortou a cabeça de Peter Kürten - Era o fim da linha para o Vampiro de Düsseldorf.

Seu corpo foi enterrado no cemitério da prisão, entretanto, sua cabeça teve outro destino...


Os assassinos da Alemanha de Kürten.

Apesar de ser um dos casos de mais repercussão na Alemanha do inicio do século passado, o caso de Kürten não foi único. É altamente provável que a situação da Alemanha facilitou a ação de tais assassinos. Primeiro porque a atenção do governo estava voltada para a guerra. Muito se concentrou nos inimigos de fora, o que facilitou a ação dos inimigos de dentro. A guerra também mascarava os homicídios. Como deduzir que um assassino em série está à solta, em uma época em que exércitos inimigos estão invadindo e bombardeando cidades inteiras. Como saber separar os homicídios das mortes trazidas pela guerra. E em segundo, a situação miserável em que população alemã se encontrava. Muitas pessoas estavam desesperadas em busca de dinheiro, aceitando seguir qualquer um que viesse com promessas de trabalho.

Eis abaixo alguns casos notórios.

Fritz Haarmann – O Açougueiro de Hanover.

Friedrich "Fritz" Haarmann, o Açougueiro de Hanover

Nascido em Hanover, Alemanha em outubro de 1879, ele era o sexto filho de uma mãe inválida. Foi mandado à escola militar, mas foi dispensado devido sua epilepsia. Sua lista criminal, assim como a de Kürten, começou com os furtos. Seu pai tentou alegar a insanidade do filho, para interná-lo, mas não obteve sucesso, ele então abriu um restaurante de frutos do mar para Fritz, mas o filho começou a roubar os rendimentos. Em 1914, ele foi flagrado enquanto invadia um deposito e foi mandado para prisão, cumprindo pena de 5 anos de detenção.

Perto de estourar a primeira guerra mundial, Fritz aproveitou o caos para raptar meninos (em 1923, mais de 600 meninos tinham desaparecido. É claro que Fritz não raptou tudo isso). Haarmann foi preso em 1919 depois de molestar uma criança. Ao sair da cadeia, conheceu e se apaixonou por um cafetão homossexual de nome Hans Grans. Os dois formariam uma dupla mortal, raptando meninos e matando-os depois de sodomizá-los.

Os cadáveres eram desmembrados e vendidos como carne de porco. Partes inúteis eram atiradas no rio Leine. As peças de roupas de mais valor eram vendidas e algumas guardadas como troféu. Em 17 de maio de 1924, um crânio foi encontrado boiando no Leine. Cinco dias mais tarde, outro foi encontrado. Outros dois foram achados no fundo do rio. Inicialmente, o que parecia ser uma brincadeira se revelou uma terrível verdade. Um saco de ossos foi encontrado por crianças e a policia temeu que um assassino estivesse à solta. Em 22 de julho de 1924, Fritz Haarmann foi preso, acusado de atentado ao pudor contra um jovem de 15 anos. Quando os policiais entraram na casa de Fritz, eles encontraram várias manchas de sangue, além das várias peças de roupas, pertencentes aos meninos desaparecidos.

Encontre o assassino: O mar de gente no tribunal de Fritz Haarmann, o Açougueiro de Hanover.

Haarmann confessou ter matado “trinta ou quarenta... não me lembro”. Foi condenado por 24 assassinatos e foi guilhotinado. Grans, o amante do “Açougueiro de Hanover”, foi condenado a 12 anos de detenção por cumplicidade. Ele morreu já em idade avançada, em 1980.
Fritz Haarmann, o açougueiro de Hanover virou tema de uma música popular alemã, chamada Warte, warte nur ein Weilchen:

 In Hanover an der leine
Rote gasse nr. 8
Dort wohnt der massenmörder Haarmann
Der die menschen umgebracht
Haarmann hat auch einen gehilfen
Granz hiess dieser junge mann
Dieser lockte mit behagen
Alle jungen mädels an
Warte warte nur ein weilchen
Bald kommt haarmann auch zu dir
Mit dem kleinen hackebeilchen
Macht er hackefleisch aus dir
Aus den augen macht er sülze
Aus dem hintern macht er speck
Aus den därmen macht er würste
Und den rest den schmeisst er weg”

Karl Großmann – O açougueiro de Berlim.

Karl Friedrich Wilhelm Grossmann

Em 13 de dezembro de 1863, nascia  Karl Friedrich Wilhelm Grossmann. Ele veio ao mundo em Neuruppin, cidade próxima à Berlim, capital alemã. Pouco se sabe sobre a infância de Grossmann, exceto o seu gosto por sadismo sexual.

Na idade adulta, Grossmann se mudou para Berlim. Foi aí que começou a matar. Os vizinhos debatiam sobre o fato de muitas mulheres, na maioria das vezes jovens, entraram na casa de Grossmann e desaparecerem, como se nunca tivessem existido. Apesar da situação estranha, ninguém deu por conta do motivo de tais desaparecimentos.
Grossmann vendia peças de carne cuja procedência era desconhecida. Ele também montava uma banca de cachorros-quentes nas proximidades das estações ferroviárias. Acredita-se que Grossmann vendia a carne das vítimas como carne de boi e usava partes para fazer salsichas. Os ossos eram jogados em um rio. Em agosto de 1920, Grossmann foi levado para a prisão, após denuncias de vizinhos que ouviram gritos e tiros, seguidos de um imenso silencio. A policia invadiu a casa do açougueiro e encontrou o cadáver de uma jovem mulher, jazendo sobre a cama. Havia evidências de que pelo menos mais três mulheres perderam a vida nas mãos de Grossmann, mas o número de vítimas pode chegar a 50. Elas teriam sido desmembradas, moídas e transformadas em salsichas, ou vendidas como carne de boi.
George Karl Grossmann foi preso e condenado à morte. Porém, ele adiantou sua pena, se enforcando em sua cela antes da execução da sentença.

Karl Denke – O Canibal de Ziebice.

A única fotografia de Karl Denke, tirada após seu suicídio.

Pouco se sabe sobre a história desse serial killer, atuante em Ziebice, Alemanha (hoje, pertencente à Polônia) entre por volta de 1921 a 1924. Denke era organista na igreja de sua cidade e levava uma vida moderada, rejeitando até mesmo ao sexo. Apesar da aparente serenidade e bondade, Denke atraiu, matou, desmembrou e vendeu as carnes de várias pessoas (de pelo menos 15).

Denke preferia as pessoas desempregadas que ele encontrava na estação próxima a sua casa. Ele as convidava ir à sua casa, com promessa de moraria e emprego. Lá ele assassinava suas vítimas, comia parte da carne delas e vendia a outra parte como carne de boi ou porco. Ele também matou andarilhos e pedintes. A casa de Denke caiu depois que uma de suas vítimas escapou e conseguiu avisar um transeunte antes de morrer. Denke foi preso, em sua casa, a policia encontrou vários pedaços de carnes, dentes e ossos; pedaços de roupas, documentos e outros pertences das vítimas. Na prisão, Karl Denke pôs fim a sua vítima se enforcando com uma corda improvisada.

Bruno Lüdke – O assassino de Köpenick

Bruno Lüdke, retardado mental e funcionário de uma lavanderia.
Esse é, provavelmente, o assassino mais prolífico da história da Alemanha, apesar de houver muita controversa quanto a sua culpa. Bruno Lüdke nasceu em Köpenick, em 3 de abriu de 1908. Ele tinha 5 irmãos. Na adolescência, Bruno começou a estuprar e praticar necrofilia, o que culminou em assassinato. Seu pai morreu em 1937, após lutar contra um câncer na garganta. Os esforços para a Segunda Guerra Mundial deram a Lüdke oportunidade para realizar seu serviço sujo. Em janeiro de 1939, Bruno foi submetido à esterilização. Logo após se mudou para uma pequena vila de Berlim, onde continuou com seus estupros. Quando o cadáver de Frieda Rössner foi encontrado, o comissário de policia interrogou Bruno, que confessou o crime e mais 85 outros assassinatos.
Existem muitas dúvidas cercando o caso. Os crimes foram praticados com Modus Operandi diferente (é claro que alguns assassinos agem sobre MO diferente), as digitais não ligaram Lüdke aos crimes e provavelmente o comissário de policia usou Lüdke como bode expiatório, tantando encerrar vários casos sem solução. O que chama mais atenção no caso, é que Bruno foi capaz de enganar a policia por anos, mesmo sendo doente mental, sendo preso após ser flagrado roubando galinhas.
Lüdke alegou insanidade (e realmente era esse seu caso), por isso foi mandado para um hospital psiquiátrico. O governa Nazista estava no poder na época, e Bruno foi submetido a várias “experiencias”. Ele acabou morrendo após receber uma injeção em um desses experimentos.
Kürten na cultura popular.

Em 1931, chegava aos cinemas alemães o filme M - Eine Stadt sucht einen Mörder (M – A caçada de um assassino), o primeiro filme falado dirigido por Fritz Lang. Na trama, nos deparamos com um assassino de crianças, Hans Beckert,  e os esforços da policia para caçá-lo. Um grupo  formado por marginais resolve caçar o assassino por conta própria e só aí o criminosos é levado à justiça.

Poster do filme "M", a primeira obra de Fritz Lang gravada com som, considerada um marco do Expressionismo Alemão.

M é rico na estética, filmado em um cenário escuro, como todos os filmes do expressionaismo alemão.Em sua época, M causou polêmica. Fritz Lang, com medo de seu filme ser censurado, ocultou o nome da cidade onde a história se passa (tudo indica que seja Berlim). Devemos lembrar que na época a Alemanha mergulhava em uma onda de nacionalismo e um filme que mostrava um assassino de crianças, cujos os esforços da policia em sua captura se mostram inúteis não seria nada bem visto, talvez por isso a relutância de Lang em citar o nome da cidade.

Peter Lorre vive Hans Beckert, o assassino.
Mas por que estou falando sobre esse filme aqui? Simples: O filme foi supostamente inspirado no caso de Kürten. Apesar dessa crença (Aliás, em alguns países, incluindo no Brasil, o filmes recebeu o subtitulo de “O Vampiro de Düsseldorf“, apelido de Kürten) Fritz Lang negou firmemente tal influencia, alegando que o filme não foi inspirado em ninguém. Lang argumenta que muitos assassinos cometeram seus crimes na Alemanha do início do século, como os já citados acima Karl Denke, Carl Großmann e Fritz Haarmann, mas em alguns pontos, Hans Beckert,  é parecido com Peter. Denke matava adultos geralmente do sexo masculino, Haarmann matava rapazes e Großmann tinha preferência por mulheres. Dos mais famosos serial killers alemães da época, o único que assassinou meninas pequenas foi Peter Kürten, Hans Beckert matava crianças. Os esforços policiais se mostraram inúteis na busca por Peter, assim como ocorreu com Beckert. Além disso, temos também a época em que o filme foi rodado (logo após o caso de Kürten). Será que foi apenas coinhecidencia, ou Fritz Lang realmente se inspirou em Peter Kürten na criação de Hans Beckert.
Fritz Lang, diretor de "M" negou firmemente a influencia de Peter em Hans. Dizia ele que muitos assassinos estavam a solta na Alemanha na época do filme e Hans não foi inspirado em nenhum deles.

Kürten também virou música, mas não foi uma musica popular animada como o caso de Haarmann, mas sim, uma música nas mãos da banda Macabre (Aliás, novidade eles fizerem uma musica para Kürten, uma vez que todas as suas músicas falam sobre assassinos).
Como já dito aqui, Peter cavou sua sepultura, foi guilhotinado e enterrado... Sem cabeça. Mas afinal, por que diabos não enterraram a cabeça dele? Simples: Estudos. A cabeça de Kürten nunca mais estaria perto do corpo novamente. Kürten teve a cabeça aberta, o cérebro extraído e estudado. Hoje, a cabeça de Peter Kürten se encontra mumificada (sem o cérebro, óbvio) e pendurada em um gancho, mas não está na Alemanha. Ela se encontra em exposição no museu Ripley Believe It or Not!, em Wisconsin Dells,  Wisconsin, EUA. O museu Believe It or Not! É conhecido por expor todo tipo de bizarrice e porcaria, como cabeças encolhidas, fotos de anomalias, antiguidades estranhas e cabeças de assassinos mumificadas (hahaha), entre outras coisas.



Fotografias da cabeça mumificada do Vampiro de Düsseldorf, exposta em um museu em Winconsin (Lar do canibal Jeffrey Dahmer e do bizarro Ed Gein).

O canibal e serial killer norte-americano Albert Fish, quando tomou conhecimento dos crimes de Kürten, o considerou um “irmão”. Albert Fish foi eletrocutado em 16 de janeiro de 1936.
Os estudos do caso Kürten foram importantes para os avanços das ciências forenses, principalmente para as análises comportamentais. Karl Berg o definiu como um “psicopata narcisista” e o “Rei dos Pervertidos Sexuais”.
O Sádico, de Karl Berg. Breg relatou toda a história de Kürten no livro e chamou o assassino de "O Rei dos Pervertidos Sexuais.
O canibal Albert Fish.
Termino assim, a história do assassino que abalou a Alemanha entre 1929 a 1930. Apesar de seu reinado de horror ser muito breve, Peter marcou para sempre a crônica policial européia e está entre um dos mais notórios assassinos em série da história. Deixo aqui, umas das frases de Kürten, explicando como agiu para obter o “precioso” sangue das vítimas:

“...No caso da menina Ohlinger, eu também suguei o sangue da sua ferida na têmpora e de Scheer da facada no pescoço. Da garota Schulte eu apenas lambi o sangue das minhas mãos. O mesmo ocorreu com o cisne que eu encontrei no Hofgarten. Eu costumava caminhas durante a noite pelo Hofgarten com bastante freqüência, e na primavera de 1930, notei um cisne dormindo na beira do lago. Eu cortei sua garganta. O sangue jorrou para o alto e eu o bebi, sugando-o pelo corte...”

Fontes:
TruTv - Crime Library.
Erichs-Kriminalarchiv.

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